sábado, 28 de fevereiro de 2009

Ney Matogrosso fará o Bandido da Luz Vermelha no cinema

por Silvana Arantes (Folha de S.Paulo, 22/11/2008)

O cantor Ney Matogrosso assumirá o papel do Bandido da Luz Vermelha no longa que dará seqüência ao título lançado em 1968 pelo cineasta Rogério Sganzerla e que se tornou um clássico do cinema brasileiro.
"Gosto de desafios. Acho a vida interessante com desafios. Nesse, tem o que me assusta e o que me atrai, que é fazer a continuação disso, principalmente por ser um roteiro de Sganzerla", disse Ney à Folha, após acompanhar, no 41º Festival de Brasília, a exibição do curta "Depois de Tudo", de Rafael Saar, em que atua.
Sganzerla (1946-2004) dedicou-se ao roteiro de "Luz nas Trevas - Revolta de Luz Vermelha" até os dias imediatamente anteriores à sua morte, quando estava internado no Hospital do Câncer, em SP.
Concluído o trabalho, entregou-o à sua mulher, a atriz e diretora Helena Ignez ("Canção de Baal"). "Agora é teu", disse. Aos ouvidos de Helena, a dedicatória soou "como uma missão". Desde então, ela e as filhas do casal, Djin e Sinai Sganzerla, empenham-se em produzir o longa, que Helena dirigirá.
Neste mês, elas conseguiram reunir o R$ 1,6 milhão do orçamento de filmagens, que estão previstas para ocorrer em fevereiro e março de 2009.

"Filme apocalíptico"
Ney avalia que Sganzerla escreveu "um filme apocalíptico", que "fala com muita clareza de todos os véus que caíram --sobre autoridade, governo, estrutura humana, social. Ele desmascara tudo".
Na trama, passados 30 anos desde que o Bandido apavorava a burguesia paulistana, invadindo suas casas, seduzindo suas mulheres e discursando sobre as tensões sociais, ele está preso e descobre ter um filho chamado Tudo ou Nada, papel que será de André Guerreiro.
Djin Sganzerla interpretará Jane (nome da personagem de Helena Ignez em "O Bandido da Luz Vermelha"), a principal namorada de Tudo ou Nada. O músico Arrigo Barnabé também foi convidado ao elenco, para o papel de um delegado.
Depois de aceitar ser Luz Vermelha, Ney reviu duas vezes "O Bandido da Luz Vermelha" (em DVD), para ver a atuação de Paulo Villaça (1946-1992) no papel-título. "No palco, sou também ator, mas um ator de mim mesmo", afirma. Para viver outros personagens, ele diz que se dispõe à direção dos cineastas. "Eu me coloco em branco, para que me digam tudo o que pretendem."
Quando, conversando sobre o papel de Luz Vermelha, ouviu de Helena Ignez um sintético "Quero você", Ney estremeceu. "Isso me deixou perturbado, porque não sei exatamente que 'eu' ela quer."
A diretora explica: "Quero o Ney completo. Nesse personagem, ele deve usar a persona que usa exclusivamente nos shows, porque Luz Vermelha na prisão é um personagem completamente mítico".
Helena diz que chegou a cogitar um convite a Daniel Filho. Mas, ao ver as entrevistas que Ney deu ao cineasta Joel Pizzini para o documentário em preparação "Olho Nu", deparou-se com "esse revolucionário Ney, um cara que escandalizou e trouxe admiradores com ele há mais de 30 anos, como um bandido". Na prisão, ele irá "cantarolar e assobiar os mesmos lindíssimos boleros que Paulo Villaça cantava no filme original", diz a diretora.
Amanhã, o Festival de Brasília sedia o lançamento da edição do roteiro de "O Bandido da Luz Vermelha" (Coleção Aplauso; Imprensa Oficial de SP), que marcou a estréia em longas de Sganzerla, aos 22 anos de idade.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ensaio Djin e André

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Ensaio 25/02/2009

Com Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes.

O Bandido da Luz Vermelha (1968)

Ficção –35mm - 92 min – PB
Direção: Rogério Sganzerla.
Elenco: Paulo Villaça, Helena Ignez, Pagano Sobrinho, Luiz Linhares, Sérgio Mamberti, Sonia Braga, Lola Brah, Maurice Capovila, Renato Consorte, Neville de Almeida, Sérgio Hingst, Roberto Luna, Miriam Mehler, Ítala Nandi, Ezequiel Neves, Carlos Reichembach, Ozualdo Candeias, Maurício Segall, Renata Souza Dantas, Maria Carolina Whitaker e outros.

• Prêmio Melhor Filme - III Festival de Brasília (1968).
• Prêmio Melhor Direção - III Festival de Brasília (1968).
• Prêmio Melhor Montagem - III Festival de Brasília (1968).
• Prêmio Melhor Diálogo - III Festival de Brasília (1968).
• Prêmio Melhor Figurino – III Festival de Brasília (1968).
• Prêmio Melhor Atriz – III Festival de Brasília (1968).
• Prêmio Governador do Estado SP (categoria especial).
• Prêmio INC (Inst. Nacional do Cinema) e Roquette Pinto.
• Exibido na Weelington Film Society, Nova Zelândia – 2007.
• Auckland Film Society, Nova Zelândia - 2007
• 9º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, 2007
• 20º Festival Internacional de Cinema de Fribourg, Suíça, 2006.
• Barbican Center, Londres, 2006.
• 16° Festival Internacional de Bobigni, Paris, 2005.
• Tekfestival – Roma, 2005 - Rogério Sganzerla’s Homage.
• Mostra Cinema do Caos CCBB - Rio de Janeiro, 2005.
• Internacional Film Museum Festival, Áustria, 2005.
• 22°Festival de Cinema de Turim, 2004 – Tribute to Rogério Sganzerla.
• III Discovering Latin America Film Festival – Londres, 2004.
• Exibido no MoMa – Nova York, 1999.
•Festival de Cinema de Taormina , Itália, 1998

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Visita de locação - Parque da Luz

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Com Helena Ignez, Ícaro Martins, Ney Matogrosso, Guilherme Marback e Sergio Silva.

14 de Fevereiro de 2009.

Manifesto de Rogério Sganzerla

1 – Meu filme é um far-west sobre o III Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; um far-west mas também musical, documentário, policial, comédia (ou chanchada?) e ficção científica. Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia, o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann). 2 – O Bandido da Luz Vermelha persegue, ele, a polícia enquanto os tiras fazem reflexões metafísicas, meditando sobre a solidão e a incomunicabilidade. Quando um personagem não pode fazer nada, ele avacalha. 3 – Orson Welles me ensinou a não separar a política do crime. 4 – Jean-Luc Godard me ensinou a filmar tudo pela metade do preço. 5 – Em Glauber Rocha conheci o cinema de guerrilha feito à base de planos gerais. 6 – Fuller foi quem me mostrou como desmontar o cinema tradicional através da montagem. 7 – Cineasta do excesso e do crime, José Mojica Marins me apontou a poesia furiosa dos atores do Brás, das cortinas e ruínas cafajestes e dos seus diálogos aparentemente banais. Mojica e o cinema japonês me ensinaram a saber ser livre e – ao mesmo tempo – acadêmico. 8 – O solitário Murnau me ensinou a amar o plano fixo acima de todos os travellings. 9 – É preciso descobrir o segredo do cinema de Luís poeta e agitador Buñuel, anjo exterminador. 10 – Nunca se esquecendo de Hitchcock, Eisenstein e Nicholas Ray. 11 – Porque o que eu queira mesmo era fazer um filme mágico e cafajeste cujos personagens fossem sublimes e boçais, onde a estupidez – acima de tudo – revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. Quis fazer um painel sobre a sociedade delirante, ameaçada por um criminoso solitário. Quis dar esse salto porque entendi que tinha que filmar o possível e o impossível num país subdesenvolvido. Meus personagens são, todos eles, inutilmente boçais – aliás como 80% do cinema brasileiro; desde a estupidez trágica do Corisco à bobagem de Boca de Ouro, passando por Zé do Caixão e pelos parias de Barravento. 12 – Estou filmando a vida do Bandido da Luz Vermelha como poderia estar contando os milagres de São João Batista, a juventude de Marx ou as aventuras de Chateaubriand. É um bom pretexto para refletir sobre o Brasil da década de 60. Nesse painel, a política e o crime identificam personagens do alto e do baixo mundo. 13 – Tive de fazer cinema fora da lei aqui em São Paulo porque quis dar um esforço total em direção ao filme brasileiro libertador, revolucionário também nas panorâmicas, na câmara fixa e nos cortes secos. O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmara é indecisa; o som fugidio; os personagens medrosos. Nesse País tudo é possível e por isso o filme pode explodir a qualquer momento.

(Escrito em 1968, durante as filmagens de O Bandido da Luz Vermelha)

Diário de S. Paulo - 07.10.2008

por Fernando Oliveira

SÃO PAULO - Quando alguém se põe a pensar nos personagens mais célebres do cinema nacional é inevitável fugir de alguns nomes como Gabriela ou até mesmo o controverso Capitão Nascimento. No entanto, nenhum deles é tão emblemático quanto o personagem criado por Rogério Sganzerla em 1968 no clássico "O bandido da luz vermelha". Agora, quarenta anos após ter ganhado as telas, um dos longas mais conhecidos do país terá uma continuação, intitulada "Luz nas Trevas - A revolta de Luz Vermelha".

O roteiro foi escrito pelo próprio Sganzerla pouco antes de sua morte, há quatro anos.

- Foram mais de 700 páginas de trabalho que tivemos que transformar no roteiro atual - conta a viúva do cineasta, Helena Ignez, uma das musas do Cinema Novo.

A atriz, que já se aventurou atrás das câmeras em um curta e mais recentemente em "A canção de Baal", em cartaz no Festival do Rio, será a responsável pela direção do filme, ao lado de Ícaro Martins.

- Acho que é o melhor roteiro que Rogério escreveu.

A história se passa trinta anos depois do fim do primeiro filme. Ao contrário do que todo mundo pensava, o bandido não morreu eletrocutado e continua preso. Luz nas Trevas descobre que tem um filho, chamado Tudo ou Nada, e resolve encontrá-lo.

- Ele tem os mesmos trejeitos e vaidade do pai. O bandido velho vai encontrar a cópia dele com o mesmo humor, com gosto por coisas semelhantes, na forma de se vestir - conta Djin Sganzerla, filha de Rogério, produtora e atriz do filme. - Faço uma das namoradas do Tudo ou Nada. Coincidentemente, ela se chama Jane, mesmo nome da personagem de minha mãe em 1968.

O papel de Tudo ou Nada chegou a passar pelas mãos de Selton Mello, que por causa de outros compromissos teve que abrir mão do personagem. O escolhido então foi o experiente ator de teatro - e marido de Djin - André Guerreiro Lopes.

- Foi algo muito natural, temos uma parceria artística há muito tempo. Sem falar que o personagem é incrível, sofre de uma 'vaidade atômica' e rouba, sobretudo, por vaidade - brinca. - Sei da responsabilidade que é interpretar um personagem como esse, mas resolvi não entrar em parafuso.

Apesar de boa parte do elenco de "Luz nas Trevas - A revolta de Luz Vermelha" já ter sido definida, além de Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes, o longa contará com nomes como Maria Luísa Mendonça.

- O filme tem um elenco imenso e cheio de nuances. Não tem personagem sem importância, até os figurantes vão ter que saber atuar - diz Helena Ignez.

A diretora, no entanto, ainda tem um espaço em branco no papel de Luz nas Trevas, o bandido velho.

- Há duas possibilidades. Convidamos o Daniel Filho, mas ainda estamos acertando datas. E também há o nome de um músico, mas não posso falar muito sobre isso. Definirei isso nas próximas semanas.

As filmagens estão previstas para o começo do próximo ano e a estréia deve acontecer em 2010.

No filme de 1968, o papel coube ao falecido Paulo Villaça, que retomou toda a mítica que envolvia o personagem real que inspirou a história de ficção.

Na época, João Acácio Pereira da Costa havia sido preso depois de assassinar quatro pessoas sempre empunhando uma lanterna de luz vermelha. O criminoso, libertado em 1997 e falecido um ano depois, ainda respondia por tentativas de homicídio e 77 assaltos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Rogério Sganzerla - Roteiro

(Joaçaba, 26 de novembro de 1946 — São Paulo, 9 de janeiro de 2004)

"Um dos mais expressivos expoentes do cinema independente brasileiro. Após apresentar seu primeiro curta-metragem 'Documentário' em Cannes, voltando para o Brasil, ele leu as chamadas dos jornais brasileiros sobre um certo 'bandido da luz vermelha' que estava aterrorizando São Paulo. Em 1968, seu primeiro longa-metragem 'O Bandido da Luz Vermelha' foi realizado, e logo foi considerado um dos clássicos do cinema nacional. (...) Alguns trabalhos não acabados ou não realizados que foram deixados pelo diretor estão seguindo seu caminho com a coordenação de Helena Ignez, mais significativamente o filme "Luz nas Trevas - A Revolta de Luz Vermelha."

(texto do catálogo do 20º Festival Internacional de Friburgo, de 2006)